CENTRAL DE PISÕES – UMA JOIA DE TONDELA

Poucos já se recordarão, certamente, da importância que teve, tempos idos, a CENTRAL HIDROELÉCTRICA DE PISÕES, ali em terras de Nandufe.

Foi a primeira Central do Concelho e hoje património industrial, mas que, apesar de muitos anos volvidos e carregada de História continua a dar-nos “luz” quando dispõe de caudal para turbinar, feito que merece ser contado.

Fomos ali guiados por João de Sousa, um jovem que reparte a sua actividade pela Base Aérea de Sintra (manutenção eléctrica de aviões), Museu do Ar, também naquela Base, estudante do curso de engenharia electrotécnica e Responsável pela Central de Pisões onde, por sistema monitorizado que criou, controla aquela unidade e, ao mesmo tempo, a relíquia. E com ele, um Tio que nos anos quarenta e com muita coisa para contar, ali trabalhou.

Quantos de nós, Concelho fora, conhecem aquela riqueza que a EDP, proprietária desde 1978, e João de Sousa mantêm viva, funcional dentro das suas capacidades, cheia de passado e documento vivo de um longo caminho que nasce na “conquista da noite pelo homem” e que hoje é símbolo de um tempo em que “a electricidade constituiu uma das maiores bandeiras”?

A HISTÓRIA QUE O RIO DINHA COMPORTA

O homem, desde os primórdios da sua existência, vem conquistando o espaço e criando condições para viver melhor, normalmente aproveitando as benesses da Natureza, adaptando-as embora com a criatividade que o dom da inteligência lhe confere.

A revolução industrial e sobretudo a era pós revolução francesa, quando começaram a ser utilizados a electricidade, o petróleo, os motores de explosão, etc. trazem ao mundo uma nova dimensão e alargam-se os horizontes. Do electromagnetismo às primeiras aplicações da electricidade, o aproveitamento do fluxo magnético e das forças que nele intervêm, vêm dar passos largos para o desenvolvimento de uma área cientifica que nunca mais deixou de evoluir.

Foi para ali, onde já existia um Pisão e se construíam artefactos agrícolas, que o Engº. António Almiro de Figueiredo, regressado de França e Áustria sonhou transpor muito do que vira lá fora. A sua visão estratégica, os conhecimentos adquiridos e a avaliação de que o futuro passaria pela electricidade e a sua força produzida, levaram-no a concretizar o sonho.

Assim, em 1923 começam as obras, primeiro para o edifício principal, o túnel de aproximadamente 300 metros e a levada Nova. Depois toda a maquinaria que iria dar corpo à Central. Certamente que as peças velhinhas que ali encontrámos, (geradores, quadro paralelo com a rede, posto de transformação, elevador/redutor, contadores primitivos, ainda de ponteiros, etc, etc) à data seriam das mais modernas e eficientes e iriam permitir que o futuro ficasse “ mais claro” para os habitantes de Tondela.

 Em 1927, certamente com pompa e circunstância, foi inaugurada a Central no dia 16 de Setembro com uma potência instalada de 105 KVA, ficando a ser explorada pela empresa Almiros, Ldª.

O rio Dinha passaria, a partir daí, a desempenhar papel importante no desenvolvimento de Tondela, já que alimentava as duas Turbinas Francis (horizontais) que iriam produzir energia para o Concelho.

O tempo foi obrigando a criar novas soluções e adaptações. Assim, em meados de 1940/50 passou a existir uma máquina a vapor, colmatando possíveis insuficiências dos caudais, mesmo suportados por uma câmara de carga de água existente, que “gerava energia a partir da biomassa como combustível”. Mais tarde, no entanto, desistiu-se da solução, pensa-se que por não ser rentável, e a máquina foi retirada.

A importante obra publicada, “ A Electricidade em Portugal – Dos Primórdios à 2ª. Guerra Mundial” refere, ao longo da sua narração, várias vezes a Central de Pisões (assim como outras que foram surgindo no Distrito). Ali se cita, curiosamente, que em 1946, entre outras empresas com produção própria, a empresa Almiros (Pisões) fornecia 792 consumidores, espalhados por Canas de Sabugosa (hoje Santa Maria), Lobão, Molelos, Nandufe, Sabugosa e Tondela.

MUITO PARA CONTAR

Para melhor compreender aquele local cheio de história, quisemos ouvir José Antunes Coelho, que na Central trabalhou vários anos.

Em conversa desenrolada ao sabor da emoção, recorda o tempo em que, ali, ele ajudava a “iluminar” a nossa terra. Durante o dia, a electricidade produzida destinava-se à Fábrica da Naia (outra jóia do nosso património industrial). À noite era para iluminação das habitações onde, em muitas delas, havia apenas uma lâmpada de iluminação para toda a casa. Aos Domingos, o trabalho da tarde era destinado a gerar energia para a “matinée” do Cine-Tejá, célebre cinema de Tondela, de que os mais velhos ainda se lembram com saudade.

José Coelho, que ali começou como ajudante, lembra as quantidades de lenha que tinha que acartar para alimentar a Caldeira; lembra os turnos, noite fora e a preocupação de estar atento a qualquer anomalia; lembra o isolamento, principalmente de inverno, mas ao mesmo tempo o acompanhamento daquela maquinaria toda que ele sabia estar a produzir uma coisa boa para o Concelho usufruir.

Recordou os seus colegas, as dificuldades, mas também a satisfação de estar em frente de uma coisa nova. Ainda hoje, tantos anos passados, ele se emociona ao entrar ali. E tanta coisa mais ele teria para contar…

O PRESENTE

Como descreve João de Sousa em desdobrável que recentemente elaborou, “Actualmente a Central de Pisões conta com uma potência instalada de 84KW. É composta por dois grupos geradores com turbina Francis, 60 KVA e 25KVA, respectivamente. A energia é gerada a uma tensão de 220V, posteriormente elevada para ser ejectada na rede de distribuição de 15KV do Concelho de Tondela mais especificamente na linha de cerâmica”.

Este jovem, é sem dúvida o pilar importante na defesa e preservação desta relíquia. É bom ver jovens, que defendem o património industrial do concelho com tanto empenho e determinação.

O FUTURO

A Central de Pisões encontra-se em pleno funcionamento, apesar de passado quase um século sobre a sua inauguração e de muita evolução havida. Mas hoje ela é, sobretudo, memorial das conquistas do Homem para o seu bem-estar.

À EDP, certamente aberta à sua dignificação e perenidade, à Câmara Municipal de Tondela, certamente interessada em participar na preservação daquela relíquia será fácil, acreditamos, protocolar o património e melhorar algumas coisas a pedir intervenção (edifício, acessos) e, através desse Protocolo, constituir ali um Pólo de divulgação cultural e turística, como que um Museu vivo e de referência a lembrar a história da electricidade em Portugal, mas também a dinâmica de um “Concelho sempre em Movimento”.

 

À EDP, a João de Sousa e José Antunes Coelho, os nossos agradecimentos por nos terem permitido a abordagem que fizemos a recordar um marco histórico do Concelho de Tondela.

JAL/MJJ

Comments (3)

 

  1. Zé Manel says:

    A noticia está fantastica.
    Desconhecia que Tondela tinha no seu concelho uma central hidroelectrica… Sim senhor!
    Parabens á Folha de Tondela em divulgar este tipo de coisas cada vez mais importantes na nossa sociedade.
    Obrigado

  2. Susana Marques says:

    Parabéns pela reportagem sobre esta central, que nos foi divulgada através da Folha de Tondela.
    Todo o património é necessário ser conservado e transmitido para próximas gerações, de forma a se poder compreender melhor o passado, o presente e enfrentar o futuro.
    É de louvar os jovens por não deixarem “morrer” as suas origens, o que foi visível neste caso.
    Gostaria que a Camara Municipal de Tondela torna-se esta central hidroeléctrica visitável, com possíveis visitas guiadas, sendo por isso preciso tranformá-la num museu.
    As energias renováveis são um bem cada vez mais precioso.

  3. João Filipe says:

    A central de Pisões, já merecia assim uma notícia de divulgação!
    Obrigado á Folha de Tondela.

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