A arte nas mãos de um homem

Desde os primórdios que o homem elaborou e criou arte nos materiais que a natureza lhe oferecia. É como se a alma do homem precisasse de se elevar na criação, no domínio da técnica, ou simplesmente fosse a forma de se expressar na natureza revendo a sua própria criação.

É assim com o sr. João Marques Antunes, natural e residente em Canas de Santa Maria, que desde miúdo gosta de trabalhar a madeira.

Nascido em 28 de Outubro de 1938, no seio de uma “ família pobre mas honrada”, conjuntamente com os seus seis irmãos todos rapazes, os filhos do “Ti Eduardo da Rita” e da tia Elisa, desde cedo souberam amanhar a terra e conhecer a natureza para sobreviverem. Assim o gosto pelas coisas do campo, cresceu na alma deste homem, que vê na nora que existia no poço da Quinta João de Deus as brincadeira com irmão Gonçalo, e o Alberto da Clara em cima do burro que cansado de tirar agua e das tropelias dos “rapazes”, caía, deitando por terra os “terroristas”. São estas memórias que o sr. João retrata nas pequenas peças que faz.

A sua vasta colecção retrata as memórias da meninice com os moinhos de água, os fornos a lenha comunitários, os arados, os utensílios da lavoura, numa precisão que só um mestre é capaz.

O Sr. João fez a escola primária em Canas, mas a sua alma de rapaz estava mais ocupado em fazer estas peças em madeira com a sua inseparável navalha. E mesmo na sala de aulas aproveitando a distracção ou concentração do professor ele continuava a esculpir na madeira a força da natureza que lhe estava na alma. Cresceu, casou com a D. Otília natural de Valverde, nasceram dois filhos, e procurou como muitos outros, outra oportunidades fora do país. Correu mundo, mas foi na África do Sul que durante anos, foi Chefe de Carpintaria, aperfeiçoando assim a arte e a técnica que lhe “vinha da alma”.

Regressado a Portugal, continuou a trabalhar, sem contudo esquecer este “vicio” de esculpir na madeira com todos os pormenores as coisas que o marcavam.

Assim criou em miniatura a Igreja Velha com todos os pormenores que conheceu, elaborou também a Igreja Matriz de Canas, sem esquecer o carro de mão e a vassoura e o ancinho que o sacristão utilizava para limpar o adro, “ agora já o retirei porque o adro já está arranjado em paralelo”. E a sua paixão levou-o a estudar a história dos monumentos que reproduz. Assim a Igreja Matriz de Canas foi começada a construir em 1785, mas esteve parada quase 60 anos “ como o domínio dos franceses em Portugal”, (Guerra Peninsular) e entre as suas paredes até silvas cresceram, até que depois recomeçaram as obras e em 1862 a Igreja era concluída.

Mas a história de Canas mesmo a mais recente já está esculpida e retratada por este homem. A “praça da Mão” que é o Largo 4 Junho com o monumento à lenda do inicio da terras de Santa Maria de Canas, hoje freguesia de Canas de Santa Maria, já esteve exposta no pavilhão da freguesia de Canas, quando da Ficton em Setembro de 2009. Aliás tem sido nestas festas da cidade e no pavilhão da freguesia que algumas peças mais representativas dos monumentos existentes, foram expostos ao público.

Quem como nós, puder com atenção observar todas as peças realizadas, verifica a mestria e o trabalho de paciência que é necessário para elaborar estas pequenas obras de arte. A precisão de peças, como motas, barcos, a torre Eiffel a ponte Vasco da Gama, o monumento aos mortos da Grande Guerra, situado no Jardim Anselmo Ferraz de Carvalho, em Tondela, até a bruxa das Cabecinhas com a sua verruga na cara, percebe a paixão que o Sr. João tem por este hoby.

Com 71 anos ainda a trabalhar como vigilante num centro comercial da cidade, o Sr. João quer na sua residência fazer um pequeno museu, onde todos mas especialmente as crianças das escolas possam visitar e assim conhecer o p0assado que foi dos seus avós e pais, ao mesmo tempo que conhecem um pouco da história da vila de Canas. Esta mestria e paixão é a forma de perpetuar um pouco o que foi as suas vivências ao longo da vida, mas sem saudosismo, nem tristezas, mas sim com a certeza que vale a pena fazer o que se gosta, nem que para isso seja preciso sacrifício e paciência…

Quanto a nós “Folha de Tondela”, ficámos maravilhados com o seu trabalho e temos muito gosto em divulgá-lo.

M.J.J.

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